Porta-voz, general Rêgo Barros leva bomba em 1ª prova árdua de campo

O general Otávio do Rêgo Barros ganhou elogios como chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, cargo que ocupou a partir de 2014 e até ser anunciado, em 14 de janeiro, como porta-voz do presidente Jair Bolsonaro. Ele sempre foi visto como atencioso e cordial com a imprensa. No novo cargo, porém, Rêgo Barros tirou nota vermelha no primeiro – e árduo – teste de campo ao qual foi submetido.

Encarregado de transmitir notícias sobre o estado de saúde do presidente, operado para a retirada de uma bolsa de colostomia em 28 de janeiro, ele manteve o fino trato com a mídia, mas pecou feio por, digamos, voluntarismo. De saída, em seu primeiro pronunciamento, usou uma adjetivação extra forte para classificar o resultado da cirurgia, chamando-a de “obra de arte”. Em seguida, como se estivesse em uma situação normal dentro do Palácio do Planalto – e não no epicentro de uma cena dramática, como só pode ser encarada uma terceira operação no intestino do primeiro mandatário do País -, o general sentiu-se à vontade para misturar outro assunto em sua oratória, tecendo comentários sobre a tragédia de Brumadinho.

Naquele momento, entretanto, o presidente em exercício era o general Hamilton Mourão que, por sua vez, já falava, em Brasília, sobre uma iniciativa formal para demitir o alto comando da mineradora Vale, dona da barragem Córrego do Feijão, cujo rompimento provocaria 142 confirmadas na terça-feira 6, com mais 199 pessoas desaparecidas – o que, nas circunstâncias, significa igualmente sem vida.

A introdução do assunto Vale/Brumadinho dentro de um ambiente hospitalar e de convalescência de Bolsonaro, além da duplicidade de informação em relação a Mourão, não foi, porém, o momento mais atrapalhado do novo porta-voz.

Questionado pelo jornal Folha de S. Paulo a respeito da ocorrência de náuseas e vômitos no quadro clínico de Bolsonaro, no dia seguinte à cirurgia, o general porta-voz explicou que, em toda a operação deste tipo, aquelas reações seriam “absolutamente normais”.

Só que não.

Ouvindo especialistas no assunto – quer dizer, médicos renomados neste tipo de operação –, a Folha contradisse Rêgo Barros, informando em matéria publicada no domingo 6 que, ao contrário da cândida explicação oficial (sim, uma vez que de porta-vozes, infere-se, toda e qualquer informação divulgada ganha peso de oficial), náuseas e vômitos são sim complicações pós-operatórios. Não são, portanto, normais.

O desmentido da Folha confirmou-se logo depois, quando uma tomografia apontou que, muito provavelmente em razão da atividade de Bolsonaro nos dias seguintes à cirurgia – como um despacho formal com um auxiliar e uma videoconferência com o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional –, gases e líquidos se criaram no intestino do presidente.

Como a confirmar a Folha, Bolsonaro teve febre, passou a ser medicado com antibióticos e, da alta prevista para a sexta-feira 9, passou a não ter mais previsão de data para deixar o Einstein. Essa posição prevalecia na noite na quarta-feira 6.

Em lugar de limitar-se a ler os boletins médicos, Rêgo Barros assumiu o papel de comentarista da cirurgia e, nesse papel, errou feio e se deu mal. O general, na prática, foi desmentido cabalmente em seu primeiro teste de fogo: não havia nenhuma normalidade nas náuseas e vômitos de Bolsonaro, mas sim uma situação que, sem a administração de antibióticos, levaria a um forte agravamento do estado de saúde do presidente.

Não se sabe se o general porta-voz já aprendeu a lição. O que dá para cravar é que, efetivamente, o exercício de seu trabalho não será nada fácil. Essa certeza depreende-se do próprio ambiente criado em torno de Bolsonaro no ambiente do Albert Einstein. Um dos filhos do presidente, o ‘marqueteiro’ Carlos, tirou uma selfie, dentro da UTI, com o presidente dormindo de camisolão ao fundo, enquanto que a primeira-dama Michelle brilhou nas redes sociais penteando os cabelos do marido, que igualmente aparecia inerte na cena.

Quanto ao general porta-voz, ele mesmo gravou em seu celular os primeiros exercícios físicos do presidente após a operação, pedalando acamado com meias de descanso. Detalhe: no foco do ‘filminho’ feito pelo general Rêgo Barros, que ele próprio tratou de espalhar nas redes sociais, a cena mostra apenas dos joelhos do presidente para baixo, sem apresentar a metade de cima do corpo de Bolsonaro. Nas redes, o efeito estético, para dizer o mínimo, não foi nada bom.

Fica a dica para o general Rêgo Barros: para entender mais rapidamente os riscos e perigos de sua atividade de porta-voz, uma boa pedida seria conversar com a experiente jornalista Ana Tavares de Miranda, a discreta e eficiente chefe do gabinete de comunicação do presidente Fernando Henrique Cardoso – e elogiada à unanimidade pelos jornalistas atuantes em Brasília até hoje –, e/ou com o jornalista Thomas Traumann, porta-voz da presidente Dilma Rousseff que, apesar da demolição de reputações provocada no processo de impeachment da petista, saiu com a sua intacta.

Rêgo Barros e a precisão da informação sairiam ganhando!

Por MARCO DAMIANI, editor de BR2PONTOS