Guedes perde influência no Congresso na reta final da Previdência: “Não adianta fazer beicinho”, diz chefe do centrão

“Não adianta o Paulo Guedes fazer beicinho. O que adianta é aprovar uma reforma realista, mesmo que mais modesta”, disse o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) em entrevista ao Estadão. Líder da Maioria na Câmara Federal, ele cravou: “A reforma da Previdência que pode ser aprovada não será a do governo. Será uma outra, que estamos construindo, com um impacto fiscal, em dez anos, entre R$ 600 milhões e R$ 800 milhões.”
Conseguir 308 votos “é uma difícil construção cirúrgica”, avaliou. “O governo não ajuda muito, porque o presidente Bolsonaro tem boa intenção, mas não tem projeto e não tem foco.”
Ribeiro disse, ainda, que “a aprovação da reforma da Previdência não será a salvação da lavoura, como o governo está anunciando”.
“Se o Paulo Guedes quiser sair não tem problema, o presidente mesmo já disse que a porta está aberta”.
Um dos expoentes do chamado Centrão – que prefere chamar de “Centro” para driblar “o sentido pejorativo” –, Ribeiro, de 50 anos, é ministro de louvor da Igreja Batista do Lago Norte, área nobre de Brasília, onde mora numa casa de 400 metros quadrados, R$ 13 mil mensais de aluguel, com a mulher e as duas filhas (Gabriela, de 10 anos, e Luiza, de 8).
Despacha, como líder, em um apertado gabinete de duas salas no corredor contíguo ao bunker de Rodrigo Maia, presidente da Câmara.
“É um equívoco atrelar a proposta à economia de R$ 1 trilhão”, disse Ribeiro. “É um discurso no deserto. Não aterroriza ninguém, não sensibiliza ninguém.”
O líder da Maioria administra, no momento, com desconforto, o peso da abertura de uma ação penal pela maioria da Segunda Turma do STF. Ribeiro, mais os deputados Eduardo da Fonte e Arthur Lira, e o senador Ciro Nogueira, são acusados, no caso conhecido como “quadrilhão do PP”, de formação de organização criminosa para desviar dinheiro da Petrobrás. Todos negam as acusações – mas é o STF que vai decidir. “É uma denúncia completamente inepta”, disse Ribeiro. “Confio que não irá prosperar.”
Ex-ministro das Cidades no primeiro governo Dilma Rousseff (2010-2014), Ribeiro votou a favor do impeachment que a tirou da Presidência no segundo ano do segundo mandato. Foi carimbado como “traidor”. A palavra pesada não o agasta – pelo menos que se perceba.
“Avisei a ministros dela que iria votar pelo impedimento por imposição do meu partido”, disse. “Isso não é traição, é política.”