BR: O colunista Merval Pereira, do Globo, foi certeiro em seu texto, hoje, ao analisar os primeiros dias do governo Bolsonaro. Segundo ele, os brasileiros convivem com duas faces. De um lado, os projetos apresentados pelos ministros Paulo Guedes e Sergio Moro.

Na avaliação de Merval, são trabalhos ‘altamente competentes’, que podem ser criticados e alterados pontualmente no Congresso.

A outra face, revelada pela irrelevância das causas que provocaram a crise institucional recente, confirma os prognósticos pessimistas de que o presidente Bolsonaro traria para o novo governo não o ar puro, mas o sufocante clima de antagonismo permanente que vem dos governos petistas.

São modos de agir populistas do mesmo quilate, que se alimentam de embates, reais ou imaginários.

Merval comenta: “Gostar de filhos próximos, até mesmo ouvi-los em questões políticas, é humano. Mas deixá-los manipular as crises de acordo com seus interesses particulares, e incentivá-los, é um perigo institucional”.

Bolsonaro tem repetido sempre que as decisões do seu governo não seguirão uma linha ideológica, como acontecia com os governos petistas. Na prática, essa afirmação carrega incompreensão do que seja ideologia, que pode ser de esquerda ou direita.

O que está se vendo na composição do Ministério, naqueles campos que não são técnicos, é que se mudou de ideologia, observa Merval Pereira, em seu texto. “Em vez do esquerdismo petista, uma direita extremista dando as cartas em setores importantes”.

Como a ministra que defende cores para definir a sexualidade da criança.

Outro ministro que, nomeado para tratar do meio ambiente, menospreza a figura do ambientalista Chico Mendes.

Um ministro das Relações Exteriores que se coloca diante dos Estados Unidos em atitude quase subserviente.

Os que alimentam o lado obscuro do governo ficarão isolados, ou assumirão de vez as suas rédeas? Essa é a grande questão.

O ex-presidente Lula, hoje na cadeia, atingiu o auge de sua popularidade enquanto manteve a abertura de seu governo, tirando-o de um nicho radicalizado. A decadência de seu projeto começou quando se sentiu forte o suficiente para voltar à radicalização que estava na base do PT.

O esquema de corrupção institucionalizado em seu governo encarregou-se de desmascará-lo, e por isso ficou isolado na sociedade.

Bolsonaro está fazendo o contrário, seguindo com sua postura extremista de palanque, dando continuidade à política do “nós contra eles”. Por parte dos petistas, era apenas uma estratégia política.

Na Era Bolsonaro, há um ingrediente de paranoia. Se acha que foi eleito só por isso, está enganado. Ainda tem popularidade suficiente para seguir em frente, podendo tornar-se um grande líder político. Mas precisa sair da bolha radicalizada em que ele e seus filhos fazem questão de permanecer.