Se ruídos políticos já atrapalhavam a tramitação da PEC da Previdência, o que dizer do estrondo das prisões de Temer e Moreira

BR: Se ruídos políticos já se refletiam nos ânimos dos parlamentares que irão votar a reforma da Previdência, o que dizer de um estrondo? O barulho da prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco foi tão grande que todas as contas de apoios à PEC que o governo fazia terão, agora, de ser refeitas.

Temer e seu velho amigo compunham com Eliseu Padilha, cujo prisão foram havia sido confirmada até às 14 horas, a troika que mandava no Palácio do Planalto até a posse de Jair Bolsonaro, e fazem parte do comando nacional do MDB. É certo que o partido que Temer presidiu vive seu pior momento, mas ainda conta com 34 deputados federais e 12 senadores. Para quem precisa de três quintos nas duas Casas, nenhum voto pode ser desprezado.

Em nota, o MDB lamentou “a postura açodada da Justiça à revelia do andamento de um inquérito em que foi demonstrado que não há irregularidade por parte do ex-presidente da República Michel Temer  e do ex-ministro Moreira Franco”. Não poderia haver, portanto, sinal maior de solidariedade aos presos. A nota significa que o partido ainda carrega muito da influência dos antigos chefes, o que não tem como não refletir numa postura mais dura da agremiação em relação ao governo que os prendeu.

Por mais que, tecnicamente, a Justiça seja independente do Executivo, a presença do ex-juiz Sergio Moro no Ministério da Justiça representou uma ponte entre esses dois poderes. Desde sempre com a postura de xerife mais estrelado da Operação Lava-Jato, Moro moldou o estilo do juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal, do Rio de Janeiro. Bretas sempre foi visto como uma cópia escarrada, no Rio, dos métodos e da postura de Moro em Curitiba. Foi Bretas quem decretou as prisões, de caráter preventivo, sem prazo mínimo para expirar. As medidas do juiz fluminense foram tomadas a partir da delação do doleiro Lucio Funaro, considerado o operador do caixa 2 do MDB.

Os parlamentares de todos os partidos relacionam diretamente as desavenças entre Moro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, às prisões dos peixes graúdos nesta quinta-feira 21. Na véspera, o deputado do DEM bateu duro no ministro da Justiça, com frases irônicas que não costuma usar contra ninguém. Para Maia, Moro ‘trocou as bolas’ sobre seu papel no governo, “porque é ministro e não presidente”. Além disso, o projeto anticrime que ele defende e quer ver tramitar de imediato não passaria, para Maia, de “um copia e cola” do projeto de segurança elaborado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Na prática, o presidente da Câmara rompeu o diálogo com Moro, porque também disse que seu interlocutor no governo é Bolsonaro, e não “um auxiliar que responde ao presidente”.

Moro não recuou, porém, e em declaração gravada de resposta a Maia disse que apenas quer a tramitação do projeto porque ele é uma peça importante de combate à corrupção. “A população não aguenta mais”, disse o ministro em defesa de mais instrumentos para atacar os corruptos.

Desde quando foi apresentado, antes da PEC da Previdência, o projeto anticrime foi visto pelos políticos como um projeto contra eles próprios. Agora, essa compreensão se consolida. Para além do MDB, também o DEM e partidos do antigo centrão se incomodaram com os novos ruídos provocados pelas prisões de hoje, que tiram deles a atenção sobre a reforma da Previdência. Na verdade, corrija-se, novos estrondos.