Bloco ‘Chama o síndico’, de Belo Horizonte, se consagra como o mais politizado do Brasil

“O trem corre no trilho da Central do Brasil”, mas também percorreu a Avenida Afonso Pena na noite de ontem. O verso, que retrata a tradicional estação do Rio de Janeiro, em uma homenagem feita por Jorge Ben Jor a Tim Maia, o síndico da música popular brasileira, embalou ao menos 15 mil foliões que seguiram o bloco Chama o Síndico, um dos maiores de Belo Horizonte.

A tragédia de Brumadinho, a vereadora morta Marielle Franco, cujo assassinato ainda não foi desvendado, o governo Jair Bolsonaro, a causa LGBT, nada escapou nos discursos que entremearam as músicas tocadas pelo bloco.

Com a bateria de 300 ritmistas, um carro de som 10 vezes mais potente do que o do ano passado e uma Kombi repetidora, a meta foi alcançar todo o público que se espalhava pela avenida. “A sonorização é o desafio para os blocos que se tornaram grandes, como o Chama o Síndico, Alcova Libertina, Então, Brilha! e Baianas Ozadas”, afirmou uma das idealizadoras, a regente Nara Torres. O grupo investiu na potência e criou a estrutura estilizada do “caminhão do groove”, onde parte dos músicos ficou.

Já prevendo arrastar uma multidão, o bloco, que desfila desde 2012, mudou o trajeto. Nos anos anteriores, fazia o esquenta na Praça da Liberdade e depois seguia pela Avenida João Pinheiro. “Ficava muito apertado. A mudança é em prol da música e da tranquilidade do bloco”, lembrou Nara. Assim, a concentração começou por volta das 18h na Avenida Bernardo Monteiro, que foi fechada nos dois sentidos entre a Avenida Afonso Pena e a Rua Aimorés. No local foram instaladas 40 cabines de banheiro químico. O desfile estava previsto para começar às 19h, mas, devido ao grande número de foliões, só começou às 20h. Depois de projeções nos edifícios da avenida, o bloco seguiu pela Avenida Afonso Pena até a Avenida Amazonas, descendo em direção à Praça da Estação, onde seria a dispersão.

Para enfrentar o desafio do aumento do público, o bloco propôs um financiamento coletivo que segue aberto por todo o carnaval. Até ontem, a arrecadação estava em torno de R$ 25 mil, dos R$ 36 mil necessários para custear todos os gastos. Recorrer à colaboração espontânea dos foliões foi uma alternativa que muitos grupos encontraram para não depender do patrocínio comercial. “Vamos fazer um carnaval pacífico, que é um desafio quando há aglomeração de pessoas. A festa continua linda, embalada pelo amor de quem faz e ocupando as ruas da cidade”, reforçou Nara.
Durante todo o desfile, equipes da Superintendência de Limpeza Urbana aturam para recolher rastros que foliões de maneira mal-educada deixavam pelo caminho. “É muito trabalho. Tem lugar que é muito difícil de limpar, porque tem muita gente”, contou o gari Ubirajara de Souza Silva, de 42, que trabalhava em uma equipe com mais sete profissionais. Em meio à multidão, uma equipe da Belotur andou com placas de alerta para conscientizar sobre a importância de usar as lixeiras. Lembrando um dos memes mais populares da internet, elas traziam os dizeres: “Acabou, Jéssica? Então, joga o lixo aqui.”

O alô, alô do Síndico informando sobre o local onde desfilaria só foi dado na manhã de ontem, mas os fãs responderam prontamente. Foi o caso do professor Danilo Vasconcelos Morais, de 24. “É o meu segundo ano consecutivo. Gosto da levada e do astral”, disse ele, que ostentava o cabelo black power como o próprio Tim Maia usou por muito tempo. A aposentada Úrsula Puntel, de 56, foi com a filha e os sobrinhos para a folia. “É o terceiro ano que venho. Adoro!” Até o fechamento desta edição, a polícia não havia registrado nenhum incidente de maior gravidade. O trânsito foi desviado na Afonso Pena na altura da Rua Rio Grande do Norte. Nas imediações, o fluxo ficou lento, mas não parou.

Hoje é dia da festa do bloco Roda de Timbau, que se concentra às 17h embaixo do Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH, mas a programação oficial dos grupos esquenta mesmo a partir de amanhã.