Com CCJ na quarta 13, presidente tem dia e hora para parar de errar; será que ele aprendeu as lições embutidas nas barbeiragens que cometeu?

BR: Nunca se viu na história deste país uma sucessão de erros políticos e de barbeiragens de comunicação tão intensa, e em tão curto espaço de tempo, como a verificada nestas primeiras dez semanas da administração Jair Bolsonaro. Muito menos provocada não por obra da oposição, de forças ocultas ou inimigos externos, mas sim, em todas e cada uma das vezes, pelo próprio presidente da República.

O protocolo foi para o espaço logo na cerimônia de posse, quando Carlos Bolsonaro pisou o couro do Rolls Royce presidencial para exibir sua macheza de segurança pronto a disparar ao primeiro movimento suspeito contra seu pai – e culminou na postagem, pelo presidente, do vídeo obsceno que correu mundo derrubando a imagem dele próprio e da maior festa popular do país. Entre esses extremos, Bolsonaro foi corrigido duplamente pelo ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e pelo secretário da Receita, Marcos Cintra, sangrou no longo episódio da exoneração de seu braço direito de campanha, Gustavo Bebbiano, da Secretaria Geral da Presidência, levou bailes retóricos do vice-presidente Hamilton Mourão, deu vexame internacional ao furar de última hora uma coletiva de imprensa em Davos, pagou mico com camisa falsificada do Palmeiras, ainda sustenta um ministro insustentável, o do Turismo, Marcelo Álvaro, e ainda ontem mesmo pediu colo aos militares, a corporação que sustenta, quando e se quiser, segundo ele, a democracia brasileira.

No episódio da divulgação do vídeo que chocou o país, Bolsonaro chegou a ouvir a palavra impeachment, saída da boca do especialista no assunto Miguel Reale Júnior – e ao abrigar-se na caserna encartou em seu baralho a carta do golpe militar, cortada no monte pela mão do general Augusto Heleno, titular do GSI. Do povo, no carnaval, o presidente ouviu coros de conteúdo impublicáveis e seu bonecão em Olinda virou alvo para latas de cerveja. Vazias, é claro.

No campo internacional, para ser coerente com a magnitude de sua obra até aqui, o presidente quase rompeu com o mundo árabe, imenso polo comprador de alimentos brasileiros, ao manifestar o desejo de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, deu a entender que gostaria de uma base militar americana em nosso território, ouvindo um ‘alto lá’ dos nossos militares, e colocou o Brasil em pé de guerra com um país muito melhor armado, a Venezuela que é de esquerda e está alquebrada, mas que tem os temidos caças Sukhói e sicários dispostos a tudo.

Ufa! Cada um e o conjunto de tantos erros crassos encerra uma grande lição – e é de se perguntar se Bolsonaro a aprendeu. Porque, afinal, chegou a hora da prova. Na próxima quarta-feira, 13, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, irá instalar a Comissão de Constituição e Justiça e as demais comissões da Casa, dando a largada para a tramitação da reforma da Previdência.

Caso o presidente Bolsonaro mantenha sua excitação caleidoscópica, em lugar de focar no tema que vai dar-lhe a principal nota da gestão que tem inteira pela frente, todo os descontos dados a ele, até aqui, pelos principais agentes econômicos serão, sem dúvida, retirados. E a cobrança pelas lambanças virá com juros e correção.

Nesta sexta-feira 8, o presidente deu mostras de que compreendeu os sinais. Ao dar o ‘agreement’ para o novo embaixador da China no Brasil, em cerimônia no Palácio do Planalto, Bolsonaro recebeu e aceitou de pronto um convite oficial do presidente Xi Jinping, para visitar o país asiático no segundo semestre. Poderá, ali, recompor o distanciamento que já faz a China enviar recados de que irá comprar menos e colocar menos dinheiro na economia brasileira do que vem fazendo nos últimos tempos.

Bolsonaro, especialmente, parece ter percebido que será ele, e não outro ente político, o grande comandante da aprovação da reforma da Previdência. Desde ontem, o presidente insiste na importância do tema, enquanto nos meios de comunicação corre a campanha publicitária oficial que mostra o projeto como sendo de combate a privilégios e com qualidades de justiça social. Ponto!

Nunca se viu na história deste país tamanhaa boa vontade das forças que movem a economia para com um presidente que se mostra tão atrapalhado. Isso é uma sorte. Basta que acerte no principal, repita-se, que é aprovar a reforma da Previdência, para Bolsonaro poder tuitar sossegado – e seus três filhos brincarem a valer – pelos próximos quatro anos, sobre o que bem entender, sem sofrer grandes incômodos. Antes, porém, ele tem de tirar nota azul na bateria de provas que começam na quarta-feira 13, com a instalação da CCJ.

Chegou, finalmente, a hora de Bolsonaro parar de errar.