Moro mostra postura autoritária, não responde a perguntas e se nega assinar documento para autorizar Telegram a confrontar versão do Intercept

BR: O ministro da Justiça, Sergio Moro, demonstrou ontem em audiência na Câmara dos Deputados que não vai se mover da posição de negar veracidade ao conteúdo dos vazamentos de diálogos revelados pelo site The Intercept, entre ele e procuradores da operação Lava-Jato. Ele evitou responder diretamente às perguntas feitas por parlamentares da oposição e não admitiu assinar um documento que permitiriam ao aplicativo de mensagens Telegram abrir o sigilo de suas mensagens e, assim, provar se os conteúdos vazados pelo site The Intercept são verdadeiros ou falsos.

Em nenhum momento Moro admitiu qualquer deslize em sua postura como juiz da Lava-Jato, garantindo que também em outros países a prática de aproximação entre magistrado e acusadores é aceitável. Em diversos momentos, Moro afirmou não lembrar de ter dito o que os vazamentos revelam, preferindo repetir números finais da Lava-Jato sobre prisões e recuperação de recursos desviados do Estado. Parlamentares da oposição viram na postura traços de autoritarismo e desprezo pelo debate, uma vez que muitas perguntas não foram respondidas diretamente.

A sabatina do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, na Câmara dos Deputados foi encerrada por volta das 21h50, após o deputado Glauber Braga(PSOL-RJ) afirmar que “a história não absolverá” Moro, que será lembrado “pelos livros de história como o juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”.

A fala de Glauber Braga causou reação de parlamentares aliados ao governo Bolsonaro que reagiram, aos gritos. Um dos mais exaltados, o Delegado Éder Mauro (PSD-PA) partiu para cima de Braga, mas foi separado pelo petista Paulo Teixeira (SP).

A mesa da presidência da audiência, comandada pela deputada Marcivania Flexa (PCdoB-AP), foi cercada por alguns deputados que exigiam o encerramento da sessão. O deputado Bibo Nunes (PSL-RS) disse que a parlamentar não tinha “pulso” para contornar a confusão.

A deputada Marcivana Flexa encerrou a sessão após Moro deixar a audiência escoltado por seguranças. Enquanto se retirava, deputados da oposição gritavam “fujão”.

Moro foi sabatinado por deputados nesta terça-feira, 2, por quase oito horas, para explicar as mensagens vazadas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo o então juiz federal e o chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol. O ministro da Justiça e Segurança Pública foi ouvido por parlamentares de quatro comissões: de Constituição e Justiça; de Trabalho; de Direitos Humanos; e de Fiscalização Financeira e Controle.

A confusão envolvendo Glauber Braga e governistas não foi o único momento de tensão da sessão. No primeiro bate-boca entre oposicionistas e aliados de Bolsonaro, o deputado Rogério Corrêa (PT-MG) chamou Dallagnol de “mau elemento” e “cretino” e foi respondido pelo líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), aos gritos. O presidente da CCJ, Felipe Francischini (PSL-PR), ameaçou encerrar a reunião durante a discussão.

“Se começar bate boca, que eu tô prevendo, vou encerrar a reunião. Quero saber se querem fazer o debate de forma civilizada, fazendo perguntas”, disse Francischini.

A estratégia dos deputados ficou clara desde o início da audiência. Os aliados de Moro e do governo Bolsonaro alegaram que a Lava Jato foi responsável pela maior investigação de combate à corrupção e lavagem de dinheiro da história do país.

Os parlamentares de oposição, por sua vez, questionam a imparcialidade do então juiz federal na condução dos processos da força-tarefa. A analogia sobre um árbitro de futebol atuando a favor de uma das equipes foi utilizada diversas vezes por oposicionistas.