Estadão: vítima de ‘herói nacional’ Ulstra teme volta da brutalidade política via tortura

“Começou a me xingar e me bateu até que eu perdi a consciência”. Assim se recorda Crimeia de Almeida, em entrevista à agência de notícias EFE, de seu primeiro encontro em 1972 com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura brasileira e homenageado pelo presidente Jair Bolsonaro antes de ser eleito presidente do País. Na época, ela estava grávida de sete meses. 

Nesta quinta-feira, 8, o presidente se encontrou com a viúva do torturador em seu gabinete em Brasília e disse que Ultra é um “herói nacional”. “(Ela) tem um coração enorme, sou apaixonado por ela. Não tive muito contato, mas tive alguns contatos com o marido dela enquanto estava vivo. Um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer”, afirmou Bolsonaro.

Crimeia de Almeida, uma enfermeira aposentada de 73 anos, pensa diferente. Ela diz que se recorda continuamente do período em que foi torturada e desaprova as falas do presidente. “Qualquer ameaça ou declaração que ele faz me deixa sempre em alerta, me faz pensar: será que voltaremos a passar por tudo aquilo outra vez?”

O presidente Jair Bolsonaro homenageou Ustra em seu discurso enquanto ainda era deputado no voto a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. “Perderam em 1964, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, disse à época.

O presidente tem causado divergência ao negar os crimes cometidos pela ditadura. Na última semana, disse que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, foi morto pela esquerda naquele período.

Para Crimeia, a tortura deveria se tornar um crime imprescritível. “Para o torturado, a tortura não prescreve jamais”, afirmou. Foi um golpe quando Bolsonaro dedicou seu voto a Ustra. Aí me dei conta de que a democracia no Brasil não valia nada”, relembra.