Com receio de Mourão, Bolsonaro sem previsão de alta paralisa governo

O período de 11 dias de internação do presidente Jair Bolsonaro no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, completado neste sábado 9, já provoca uma série de problemas na gestão da administração federal. A jornalista Tânia Monteiro, do jornal O Estado de S. Paulo, reuniu uma ótima apuração sobre esse problemas, em texto cujo resumo você lê a seguir:

A internação prolongada do presidente Jair Bolsonaro aliada a resistências de sua família, e até mesmo de ministros com assento no Palácio do Planalto, a deixar o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, assumir temporariamente o governo tem provocado a paralisia de ações do Executivo.

Na prática, assuntos que precisam do aval de Bolsonaro estão suspensos, aguardando seu retorno às atividades para uma decisão final. Além de mandar segurar, “até segunda ordem”, nomeações e dispensas no segundo escalão em repartições federais, para conter brigas por cargos entre aliados – como mostrou ontem o Estado –, Bolsonaro não bateu o martelo sobre a melhor proposta para a reforma da Previdência.

O núcleo político do governo diverge da equipe econômica, por exemplo, em relação às regras de transição para o novo modelo de aposentadoria. Além disso, outro projeto que depende da alta de Bolsonaro para ter continuidade é a medida provisória do recadastramento de armas de fogo.

Segundo o ex-deputado Alberto Fraga (DEM-DF), que auxiliou o Planalto na preparação do decreto regulamentando a posse de armas, o governo só espera Bolsonaro voltar às suas funções para editar a medida. “Estamos aguardando o presidente sair do hospital para tratar disso”, disse Fraga.

O acordo sobre a cessão onerosa do excedente da Petrobrás é outra agenda que está em compasso de espera. Líderes do governo no Senado e no Congresso também não foram escolhidos ainda porque precisam passar pelo crivo do presidente.

Bolsonaro completará 15 dias de internação na próxima segunda-feira. Mourão está isolado em seu gabinete e só às terças-feiras coordena a reunião do Conselho de Governo com ministros. O clima de indefinição no Planalto é alimentado pela falta de um canal direto permanente tanto do núcleo político quanto do grupo de militares com Bolsonaro.

Nos bastidores, a avaliação de filhos do presidente e até mesmo de alguns militares é a de que Mourão busca protagonismo desde o período de transição. Com isso, Bolsonaro teria sentido o seu espaço invadido. No Planalto, os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, também foram contrários à interinidade do general. O vice diz ser leal a Bolsonaro e fica muito aborrecido com o que chama de “intrigas”.

De qualquer forma, o receio é tamanho que Bolsonaro optou por retomar o trabalho no hospital ainda ontem, um dia após ser diagnosticado com pneumonia. Ele se reuniu com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e com o subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Jorge Oliveira.

A viagem dos dois para São Paulo foi decidida na última hora. Tudo porque o presidente ficou preocupado com notícias de que o governo estava paralisado e decidiu mostrar que está se recuperando.

Após ter uma pneumonia detectada anteontem, Bolsonaro reagiu ao tratamento e apresentou melhora ontem. Os bons resultados nos exames laboratoriais e a aceitação de dieta líquida fizeram a equipe médica optar pela retirada do dreno no abdome e da sonda nasogástrica.

O quadro de pneumonia, no entanto, inspira cuidados e exige tratamento de pelo menos sete dias, o que indica que o paciente precisará ficar internado no mínimo até a próxima quarta-feira, quando completará uma semana de uso dos medicamentos contra a doença.

De acordo com o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, Bolsonaro amanheceu ontem animado e “super disposto”. O porta-voz afirmou ainda que o presidente ficou muito feliz com a retirada do dreno do abdome e da sonda nasogástrica. “Ela (a sonda) o incomodava muito”, disse.

Passados 11 dias desde a cirurgia, Bolsonaro vive um pós-operatório complicado, apesar da melhora registrada ontem pela equipe médica. O primeiro revés foi a dificuldade resultante da própria operação. Estimada para levar três horas, o procedimento acabou durando sete horas por causa das inúmeras aderências intestinais encontradas.
No domingo passado, após o presidente apresentar febre, exames detectaram um abscesso na região onde havia a colostomia. Foi colocado um dreno no abdome para sugar o líquido e iniciado tratamento com antibiótico para tratar o ponto infeccioso.

Anteontem, novo episódio de febre e exames de imagem mostraram a pneumonia, fator de preocupação para qualquer paciente internado, mas que, no caso de paciente maior de 60 anos, como Bolsonaro, que tem 63, requer ainda mais cautela.

“O pós-operatório dele está conturbado. A pneumonia não é grave, mas preocupa”, declarou um médico do Einstein que preferiu não se identificar.