Nobel de Literatura vencido por amigo de ‘Carniceiro dos Balcãs’ contradiz prêmio da Paz a líder etíope; equivalente seria contemplar Lula e Bolsonaro na mesma homenagem

BR: Por equivalência, foi como se um prêmio, no Brasil, contemplasse ao mesmo tempo o atual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula, diferenciado-os apenas por categorias. Este tipo de contradição ocorre, neste momento, com o Prêmio Nobel, que contemplou o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, com o troféu da Paz, por sua atuação pelo fim da guerra com a Eritréia, mas também premiou o austríaco Peter Handke com a láurea em Literatura. Ambos não deveriam estar misturados.

A interpretação global é a de que, com o prêmio a Handke, houve um sonoro aplauso, pela Academia sueca, a quem se colocou muito próximo a um dos maiores genocidas dos tempos modernos, o sérvio Slobodan Milosevic, conhecido como o ‘Carniceiro dos Balcãs’.

Apesar de aclamado por sua literatura humanista, especialmente por roteiros de filmes como Asas do Desejo (1987), parceria com o diretor alemão Wim Wenders, o austríaco foi amigo pessoal de Milosevic, condenado por crimes de guerra na antiga Iugoslávia. Populações civis, entre as quais dezenas de milhares de crianças, foram perseguidas e mortas pelos soldados do Milosevic pautados por ordens de limpeza étnica por seu chefe. Em apoio ao ‘Carniceiro’, o laureado Handke foi ao julgamento internacional do amigo, em Haia, e, ainda, discursou em seu funeral. Não demonstrou nenhum sinal de arrependimento pela longa amizade com o genocida.

O Nobel de Literatura, mesmo indiretamente, se deixou manchar pela triste associação entre seu ganhador e um dos mais cruéis assassinos em massa dos tempos modernos, tirando o brilho da acertada homenagem ao primeiro-ministro pacifista da Etiópia com o Nobel da Paz.